quarta-feira, 14 de setembro de 2016

desmemórias



















Sobre o teu cheiro

Achei uma blusa tua aqui no armário. Tentei sentir teu cheiro nela, mas não consegui decifrar se ainda estava ali. Teu cheiro tinha tanto da tua presença, e agora eu não consigo encontrar. E daí que eu não me lembro como é ter você por perto. E daí que agora eu não sei o que eu fiz com a tal blusa, não sei mesmo. Veja, não foi por mal, eu mesma vivo esquecendo coisa minha por aí. Faço um esforço danado pra lembrar onde deixei e depois acabo me consolando com o fato de que nunca mais vou ter aquilo de novo. Não é mais meu(será que já foi?), deixa pra lá. Dói menos do que a gente pensa.


Sobre a tua voz
Te encontrei ontem na rua e te achei esquisito. Achei tua voz estranha. Não lembrava de como ela era. Na verdade eu me recordava era de uma outra voz. E aí quando você disse "oi" eu lembrei que não lembrava muito bem de você. Eu gosto tanto da tua voz (aquela que você tinha não essa que você tem agora, ou a que sempre teve e eu que escutava diferente), às vezes eu ainda ouço ela no rádio, sabia?


Sobre você
Guardei teu cheiro numa camisa que perdi, e tua voz eu guardei numa lembrança que inventei.
Eu queria escrever uma coisa bonita procê, mas aí eu perdi também a vontade, na verdade acho que te desencontrei. Como eu já disse, vivo esquecendo as coisas por aí.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Amar é maré



















Um instantinho antes do amanhecer, na maré seca, um fino manto d'água cobria os corais. O mar refletia o céu formando um espelho sem fim. Já não se sabia mais quem era teto e quem era chão.
Amarrei a barra da saia e enterrei os dois pés na areia. Esperei a onda morna que vinha mansa chegar e me molhar as pernas.
Essa era a razão de estarmos alí. Como se tivéssemos nascido para estar naquele lugar e viver aquele momento. Relativizar o espaço, o tempo e todos os pretextos da nossa existência para pura e simplesmente estar alí. E foi assim.
Tão imersos nos encontrávamos que a gente nem viu o sol chegar. Fomos dormir já era dia claro. E eu sonhando acordada já não sabia o que era verdade vivida e o que era verdade inventada.

domingo, 23 de novembro de 2014

(in)solitudes

Na  cama, sem pressa.
O sol invade imprimindo recortes de luz e a gente vê o que quer.
Que falta me faz a solidão de estar só e de querer estar só. 
De certa maneira aquele pequeno quarto me fez sentir um enorme vazio. Desligar o ventilador me pareceu uma boa ideia, quem sabe o calor não me trazia alguma sensação próxima a de acolhimento.
Não aguentei muito tempo aquele silêncio, a bem da verdade, o barulho do ventilador era minha única companhia.
Peguei o livro gordo que estou lendo há um ano e não passei das primeiras páginas. Três páginas é o que consigo ler antes de cair no sono. Três páginas. Na antepenúltima palavra da terceira página meus olhos param de responder aos meus comandos e fecham a contragosto. 
Meus olhos não são a única parte do meu corpo que pararam de me obedecer ultimamente.
Quem dera os olhos fossem meus únicos órgãos malcriados. 
Quem dera a vontade louca de saber o que acontece nas próximas páginas do livro gordo que estou lendo já faz um ano fosse o motivo da minha inquietude.
Mas a vontade louca e intranquila que me aflige é a de saber o que acontece. Aqui e daqui a pouco.
Em mim.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

O que vi dentro de mim.

























No mesmo erro sigo. No mesmo erro erro.
No mesmo momento confio. Num simples gesto me entrego.

- Felicidade?: Procuro. - Amor?: Indago.
Tão longe estão que pra me ouvirem grito bem alto.

Será que algum dia vou achá-los? Ou pior, será que eles sequer existem?
- Me respondam por favor! - Me ouçam, me ajudem, se mostrem!
Quanto mais desesperada fico, mais abafados soam meus apelos.
A presença da solidão é avassaladora e me domina por inteiro.

Me recolho timidamente sem vontade de seguir,
mas é nesse fim que me encontro,
e me sinto mais forte do que nunca me senti.

Sorrindo então me respondo:
- Estamos aqui.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Infinidade de Ser

Devagar me embrenho na selva de pensamentos soltos. Pontiagudos e cortantes. Meus pés estão cheios de farpas.. cada passo dado incomoda e dói, ainda bem.
Divago por universos inteiros e vejo planetas passarem voando, civilizações inteiras já estiveram aqui, agora me observam de longe.. infinitos pares de olhos.
Sinto medo, não olho mais pro céu em noites estreladas.. a imensidão me assusta, outro dia mesmo eu a engoli e pude sentir ela dentro do meu estômago. De qualquer forma somos amigas, eu e a imensidão.


quarta-feira, 1 de junho de 2011

Reflexos de existências imaginárias




































Boto a mão pra fora da janela... a chuva está caindo, consigo ver pelo reflexo que faz quando passa a luz do poste, mas não ouço seu barulho, não sinto seu cheiro nem suas gotas geladas contra minha pele.
A chuva não cai, porque não molha.
Meu choro agora é gelado como as gotas da chuva devem ser (não sei, não sinto).. corre pelo meu rosto e pára quando alcança minha boca seca. Meu choro não molha, porque não cai.. são lágrimas imaginárias.
A companhia da tv ligada me deixa inquieta,
são tantas pessoas dizendo tantas coisas, são espectros.... assim como aqueles que passaram por mim e não me viram e os que eu vi e não enxerguei..
Estou cercada de espectros.... espectros vivos. meio vivos meio mortos.
Sou um pedinte dentro de meu próprio quarto, eu passei direto por mim mesma e aquela criatura patética sentada num canto sentindo pena de si virou um espectro também...
uma forma mal contornada, um borrão..
Acontece que eu me olhei no espelho agora e vi meu reflexo..
ele estava lá sim, estava ao contrário, mas isso já era de se esperar.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Filha de Janaína

Sentiu a areia entrar pelos dedos e afundou ainda mais seu pé para que aquela sensação não fosse embora. A aspereza dos grãos de areia contra sua pele macia era estranhamente gostosa. 
Contorceu os dedos do pé tentando agarrar aquele momento.

Deu graças a brisa fresca que, às vezes, batia e a fazia esquecer por um segundo o calor soberano que se impunha. O mar estava a poucos metros, calmo e liso. Um pecado azul.
Tirou o vestido, a presilha que separava uma mecha de cabelo que sempre ficava caindo em sua testa, e por fim a calcinha. Sentiu uma gota de suor cair de seu rosto e percorrer todo o seu corpo, ou seria uma lágrima?
Com alguns passos chegou a beira e mergulhou o corpo inteiro de uma vez só. Sentiu a água gelada invadir todos os poros de sua existência. Por um instante teve medo, mas logo se rendeu à onda e num momento de êxtase profundo deixou que a levasse.
Foi em seu último suspiro de vida que disse carinhosamente: "Serei para sempre tua."
E desfaleceu envolta nos fortes braços de Mar, aquele que a fez mergulhar um mergulho sublime dentro de si mesma.