segunda-feira, 2 de abril de 2018

Esperar devia ter outro nome

Esperar devia ter outro nome
Porque nunca foi uma coisa só.

Existe o esperar anunciado
Aquele que já foi avisado
E agora aguarda apressado
O chegar do outro alguém.

Existe o esperar esperançoso
Aquele tal que nunca morre
Tem um olho na porta e um ouvido na linha
Porque do lado de lá se sabe
-de certo que sabe- será que sabe?
Que do lado de cá se anseia um alô.

E, por fim, existe o esperar silencioso
Aquele que não se anuncia e nem anseia.
É mudo
Porque de tanto esperar já perdeu o tom.
É fraco
Porque de tanto esperar perdeu vontade.
O esperar silencioso é, sobretudo, um esperar triste, pois reconhece sua solidão.


E que não se tome o esperar como ato que, por regra, contém dois.
Muitas vezes se espera de fora pra dentro
E vice-versa.
Esperar não é ciência e nem deve ser penitência.
Esperar é entendimento de que há, de fato, um fim no encontro. 
E por muitas vezes, senão por todas elas, não é com o que(m) se esperava.

Esses são os quais já tomei conhecimento. Há de existir outros esperares de outros muitos que esperam por aí.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Mas da próxima vez que eu for a Brasília, eu trago uma flor do cerrado pra você


A poeira que sobe vermelha

e rouba o ar do pulmão

gruda na pele, na roupa e nos olhos

e deixa tudo vermelho junto

que me lembra que nessas terras que eu explorei

eu deixei um pouco de saudade

deixei saudade nas pedras que subi pra descansar dos rios

e nos rios que mergulhei cheios de terra

essa mesma terra vermelha que agora vira pó de lembranças

que corre vermelha junto com meu sangue

e que assenta,
enfim, dentro do peito

e encontra terreno no meu coração



Dessas pequenas pequenezas

me fica uma certeza

de que nada é tão grande

que não possa ser pequeno de longe




quarta-feira, 14 de setembro de 2016

desmemórias



















Sobre o teu cheiro

Achei uma blusa tua aqui no armário. Tentei sentir teu cheiro nela, mas não consegui decifrar se ainda estava ali. Teu cheiro tinha tanto da tua presença, e agora eu não consigo encontrar. E daí que eu não me lembro como é ter você por perto. E daí que agora eu não sei o que eu fiz com a tal blusa, não sei mesmo. Veja, não foi por mal, eu mesma vivo esquecendo coisa minha por aí. Faço um esforço danado pra lembrar onde deixei e depois acabo me consolando com o fato de que nunca mais vou ter aquilo de novo. Não é mais meu(será que já foi?), deixa pra lá. Dói menos do que a gente pensa.


Sobre a tua voz
Te encontrei ontem na rua e te achei esquisito. Achei tua voz estranha. Não lembrava de como ela era. Na verdade eu me recordava era de uma outra voz. E aí quando você disse "oi" eu lembrei que não lembrava muito bem de você. Eu gosto tanto da tua voz (aquela que você tinha não essa que você tem agora, ou a que sempre teve e eu que escutava diferente), às vezes eu ainda ouço ela no rádio, sabia?


Sobre você
Guardei teu cheiro numa camisa que perdi, e tua voz eu guardei numa lembrança que inventei.
Eu queria escrever uma coisa bonita procê, mas aí eu perdi também a vontade, na verdade acho que te desencontrei. Como eu já disse, vivo esquecendo as coisas por aí.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Amar é maré



















Um instantinho antes do amanhecer, na maré seca, um fino manto d'água cobria os corais. O mar refletia o céu formando um espelho sem fim. Já não se sabia mais quem era teto e quem era chão.
Amarrei a barra da saia e enterrei os dois pés na areia. Esperei a onda morna que vinha mansa chegar e me molhar as pernas.
Essa era a razão de estarmos alí. Como se tivéssemos nascido para estar naquele lugar e viver aquele momento. Relativizar o espaço, o tempo e todos os pretextos da nossa existência para pura e simplesmente estar alí. E foi assim.
Tão imersos nos encontrávamos que a gente nem viu o sol chegar. Fomos dormir já era dia claro. E eu sonhando acordada já não sabia o que era verdade vivida e o que era verdade inventada.

domingo, 23 de novembro de 2014

(in)solitudes

Na  cama, sem pressa.
O sol invade imprimindo recortes de luz e a gente vê o que quer.
Que falta me faz a solidão de estar só e de querer estar só. 
De certa maneira aquele pequeno quarto me fez sentir um enorme vazio. Desligar o ventilador me pareceu uma boa ideia, quem sabe o calor não me trazia alguma sensação próxima a de acolhimento.
Não aguentei muito tempo aquele silêncio, a bem da verdade, o barulho do ventilador era minha única companhia.
Peguei o livro gordo que estou lendo há um ano e não passei das primeiras páginas. Três páginas é o que consigo ler antes de cair no sono. Três páginas. Na antepenúltima palavra da terceira página meus olhos param de responder aos meus comandos e fecham a contragosto. 
Meus olhos não são a única parte do meu corpo que pararam de me obedecer ultimamente.
Quem dera os olhos fossem meus únicos órgãos malcriados. 
Quem dera a vontade louca de saber o que acontece nas próximas páginas do livro gordo que estou lendo já faz um ano fosse o motivo da minha inquietude.
Mas a vontade louca e intranquila que me aflige é a de saber o que acontece. Aqui e daqui a pouco.
Em mim.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

O que vi dentro de mim.

























No mesmo erro sigo. No mesmo erro erro.
No mesmo momento confio. Num simples gesto me entrego.

- Felicidade?: Procuro. - Amor?: Indago.
Tão longe estão que pra me ouvirem grito bem alto.

Será que algum dia vou achá-los? Ou pior, será que eles sequer existem?
- Me respondam por favor! - Me ouçam, me ajudem, se mostrem!
Quanto mais desesperada fico, mais abafados soam meus apelos.
A presença da solidão é avassaladora e me domina por inteiro.

Me recolho timidamente sem vontade de seguir,
mas é nesse fim que me encontro,
e me sinto mais forte do que nunca me senti.

Sorrindo então me respondo:
- Estamos aqui.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Infinidade de Ser

Devagar me embrenho na selva de pensamentos soltos. Pontiagudos e cortantes. Meus pés estão cheios de farpas.. cada passo dado incomoda e dói, ainda bem.
Divago por universos inteiros e vejo planetas passarem voando, civilizações inteiras já estiveram aqui, agora me observam de longe.. infinitos pares de olhos.
Sinto medo, não olho mais pro céu em noites estreladas.. a imensidão me assusta, outro dia mesmo eu a engoli e pude sentir ela dentro do meu estômago. De qualquer forma somos amigas, eu e a imensidão.


quarta-feira, 1 de junho de 2011

Reflexos de existências imaginárias




































Boto a mão pra fora da janela... a chuva está caindo, consigo ver pelo reflexo que faz quando passa a luz do poste, mas não ouço seu barulho, não sinto seu cheiro nem suas gotas geladas contra minha pele.
A chuva não cai, porque não molha.
Meu choro agora é gelado como as gotas da chuva devem ser (não sei, não sinto).. corre pelo meu rosto e pára quando alcança minha boca seca. Meu choro não molha, porque não cai.. são lágrimas imaginárias.
A companhia da tv ligada me deixa inquieta,
são tantas pessoas dizendo tantas coisas, são espectros.... assim como aqueles que passaram por mim e não me viram e os que eu vi e não enxerguei..
Estou cercada de espectros.... espectros vivos. meio vivos meio mortos.
Sou um pedinte dentro de meu próprio quarto, eu passei direto por mim mesma e aquela criatura patética sentada num canto sentindo pena de si virou um espectro também...
uma forma mal contornada, um borrão..
Acontece que eu me olhei no espelho agora e vi meu reflexo..
ele estava lá sim, estava ao contrário, mas isso já era de se esperar.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Filha de Janaína

Sentiu a areia entrar pelos dedos e afundou ainda mais seu pé para que aquela sensação não fosse embora. A aspereza dos grãos de areia contra sua pele macia era estranhamente gostosa. 
Contorceu os dedos do pé tentando agarrar aquele momento.

Deu graças a brisa fresca que, às vezes, batia e a fazia esquecer por um segundo o calor soberano que se impunha. O mar estava a poucos metros, calmo e liso. Um pecado azul.
Tirou o vestido, a presilha que separava uma mecha de cabelo que sempre ficava caindo em sua testa, e por fim a calcinha. Sentiu uma gota de suor cair de seu rosto e percorrer todo o seu corpo, ou seria uma lágrima?
Com alguns passos chegou a beira e mergulhou o corpo inteiro de uma vez só. Sentiu a água gelada invadir todos os poros de sua existência. Por um instante teve medo, mas logo se rendeu à onda e num momento de êxtase profundo deixou que a levasse.
Foi em seu último suspiro de vida que disse carinhosamente: "Serei para sempre tua."
E desfaleceu envolta nos fortes braços de Mar, aquele que a fez mergulhar um mergulho sublime dentro de si mesma.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Vai ver foi um sonho...
























Que vontade de um abrigo
um peito aberto certo de um abraço.
Daquele mistério que brota do fundo da barriga
e faz sentir um medo gostoso.
Da solidão vivida a dois.
Sozinhos no mundo, só nós mais ninguém.
Que vontade de um aconchego.
Ficar a vontade.. falar de bobagem.
Vontade de apaixonar.
De quando o amor aparece assim, como quem não quer nada.
Divino e inexplicável.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010





A imaginação é nossa vontade de caçoar da realidade. Às vezes acho que o plano real é muito mais virtual do que a própria imaginação. Me parece que somos tão programados. Imitando os jeitos e treijeitos do amigo ao lado, seguindo as normas e convenções. Mesmo quando somos contraventores, rebeldes, temos perfeita noção de que os estamos sendo. Nessas horas liberdade me soa uma mentira.
Mas quando dormimos, não. Sonhar nos é inerente. É incontrolável. Todas a 'verdades' são postas à prova. Nossa mente brinca, ri, caçoa da nossa percepção do real. Ela é menina, moleque... gosta de nos dar sustos e pregar peças. Mas é também pura e doce e pode nos trazer as mais lindas sensações. Posso ser verde. Ter asas. Duas cabeças ou cabeça nenhuma. Posso ser eu, posso ser ele, posso ser todos. Posso até não ser. Mas sinto. Sinto livremente todas as sensações e vontades que surgem. Sinto em absoluto. Sinto plenamente.
E aí já acordada eu me pergunto: Será que sonhar não é a coisa mais real do mundo?

domingo, 23 de maio de 2010

Sonhos Coloridos


Branco era um menino tímido e inseguro. Não tinha amigos. Era fraco, sem graça, lhe faltava apelo.
Todos os dias assistia de longe às crianças brincarem, invejava a facilidade com que se sujavam e sentia muita vontade de chorar. Era o único espectador da sua infância solitária.
Roxo, Azul, Rosa, todos pareciam tão vibrantes e alegres. Até mesmo Cinza, que tinha lá seus momentos de melâncolia, se dava bem com a garotada. Mas ele, como alguém iria gostar daquele moleque pálido e chato?
Até que numa manhã ensolarada, Branco percebeu um garoto encostado no muro, nunca tinha visto ele antes. Foi tomado por uma sensação estranha. Ver aquele menino era como ver seu reflexo e ao mesmo tempo seu extremo oposto.
Se aproximou por trás e num gesto inédito tocou seu ombro. Nunca havia tocado ninguém antes. Preto assustou-se, nunca antes havia sido tocado. Trocaram olhares, se estranharam e então se reconheceram. Riram, choraram, se abraçaram, se odiaram e se amaram. Tudo isso aconteceu numa fração de segundo. Naquele momento entenderam.
Deram as mãos e sairam correndo sem medo em direção aos outros meninos. Foram recebidos com entusiasmo e se misturaram ao arco-íris de crianças.
Hoje Preto e Branco são melhores amigos, comunicativos e divertidos, seguros de si. Têm conciência de sua importância: São a presença absoluta de tudo e a ausência total de nada.